29.7.12


Abandonava-se para trás, oferecendo o queixo, se a tentavam beijar. E muitos eram os que. Viver, para ela, era ensaiar uma coreografia em cadeia, imagem-movimento-perpétuo. Tocava lira labareda nas horas em que, moribunda, a superfície da realidade fugia, anunciando explosão, e ela via ameaçada a concretude das linhas das rendas do vestido surripiado de tela reluzente decadente apodrecida. Quando exercia o seu poder ancestral sobre um outro, até ao ponto em que o esmagasse contra a parede invisível, ria o seu riso emudecido, todo vazio negro de boca emoldurado por dentes, desaurado. E haveria de ser sempre assim: os seus encantamentos de deusa bruxa lubrificariam apenas os sonhos daqueles fracos sensíveis às febres da sinuosidade encarecida das formas, bem como dos que não reconhecessem em formas a propriedade de ser decadente, forma-forma. Era então, somente para esses poucos, que o tempo rasgava a carne, que os arabescos das rendas do corpo estremeciam ao ritmo acelerado do movimento, e ela se despia do vestido de si e se depositava nos olhos lascivos abertos de artifício, e a sua nudez era a de jacintos luxuriando perante anunciada e inescapável morte. Morte sensual – esta a sua lição. Quando no espaço exíguo não mais corresse ar, mas a promessa do fogo, ela floresceria, e com ela a memória de tempos que não existiram, porque a carne não houvera. Tintada de rosa, negro, pérola, ela explode e propaga-se para além dos limites da matéria. Encontramo-nos no segundo último, bailamos ao som da lira não física não celestial, de resquícios de luz, e liricamente fundimos e desaparecemos. 
Pietro Giovanni Dell'Angelo, «La donna nuda». Tradução minha.

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